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Drogas

publicado em 15 de Dezembro de 2011

Série de Reportagens - Perfil do usuário de drogas e pontos chave do tratamento

Afinal, qual é o papel da família, da sociedade e, principalmente, que medidas são realmente eficientes para que se alcance a reabilitação?

por Guilherme Amorim

O problema das drogas e a dependência química existe. O reconhecimento por parte das autoridades de saúde e sociedade tem feito com que, cada vez mais, se voltem as atenções para a proteção e defesa da saúde dessas pessoas. Afinal, qual é o papel da família, da sociedade e, principalmente, que medidas são realmente eficientes para que se alcance a reabilitação?

A dependência de drogas é “uma doença complexa, que envolve fatores biológicos, psicológicos e sociais. Por isto, o tratamento de um dependente químico necessita de uma equipe de profissionais especializados em dependência química", como destaca o médico membro da Comissão de Controle do Tabagismo, Alcoolismo e Outras Drogas da Associação Médica de Minas Gerais (Contad/AMMG), Valdir Campos.

Mesmo com as novas estratégias, a existência de uma política pública de atenção para o dependente químico ainda é muito recente. Um exemplo é a criação na rede pública dos Centros de Atenção Psicossocial para Álcool e outras drogas (CAPS ad). Até então, como lembra o especialista em dependência química, os pacientes eram esquecidos ou excluídos da rede assistencial, sem uma referência para se tratar que não fossem os grupos de mútua ajuda (Alcoólicos Anônimos, Narcóticos Anônimos) e as Comunidades Terapêuticas.

Perfil na dependência

Alguns sinais são sugestivos para que se perceba se uma pessoa pode estar usando drogas. De acordo com Campos, são: mudanças bruscas do comportamento sem uma causa aparente, afastamento do convívio familiar, descuido com a higiene e aparência, apologia ao uso de drogas, faltas às aulas e ao trabalho, acidentes e traumas. “A identificação precoce destes sinais pode ajudar a família a buscar ajuda o mais breve possível, evitando que a pessoa evolua para quadros mais graves, como a dependência”, reforça Valdir.

No geral, adolescentes tímidos, ansiosos por algum tipo de reconhecimento entre os amigos, apresentam maior comportamento de risco para a dependência. Além disso, jovens inseguros, que sofrem de depressão ou ansiedade, costumam procurar as drogas como alívio para seus problemas. “No extremo oposto, aqueles que parecem não ter medo de nada e que buscam todo tipo de emoções também correm grande risco de se envolver com drogas”, caracteriza o especialista.

Para proteção e tratamento do dependente químico, é necessário, inicialmente, direcionar os cuidados para a minimização dos desconfortos gerados pela dependência da droga. Isso implica que a pessoa abrace a proposta de melhora da sua qualidade de vida em todos os níveis. Fundamentais neste processo de recuperação também são: a assistência à família, para que ela possa adotar uma nova postura frente ao dependente químico; e a implementação de estratégias que permitam fortalecer e diversificar a rede social do dependente químico. “Grupos de apoio da comunidade, escola, trabalho, instituições religiosas, culturais, de lazer também podem melhorar o vinculo da pessoa com a comunidade”, destaca o especialista.

O apoio familiar foi, justamente, o que contribuiu para a recuperação de Juldenicio Dias dos Santos. Por oito anos, Santos viveu na pele a questão da dependência química, por ser usuário de álcool, cigarro, maconha, cocaína e crack. Nesse período, conta ele, "perdi tudo". Somente com o apoio da família é que conseguiu buscar a sua recuperação. "Pedi ajuda a minhas irmãs e elas procuraram a Igreja Bastista da Lagoinha. Na época, ela tinha várias casas de recuperação, inclusive a comunidade terapêutica Credeq", destaca.

A sua recuperação durou seis meses, período no qual a família sempre esteve presente. "Eles me apoiaram de uma maneira surpreendente, frequentaram todas as reuniões, o que considero, até hoje, fator primordial nesse período", ressalta. Além disso, Santos também aponta a ação em conjunto, na totalidade terapêutica, como fundamental no tratamento da dependência química. Isto, segundo ele, porque “as marcas deixadas são de uma intensidade, às vezes, quase indescritíveis”, caracteriza.

Exemplo de superação, Juldenicio é, hoje, o diretor da Unidade de Tratamento Masculino da comunidade terapêutica Credeq. Tudo com a certeza de que é possível auxiliar as pessoas na construção de uma história sem sofrimento. “Considero que ajudar essas pessoas que estão onde eu estava é me manter bem. Não existe ferramenta melhor do que a ajuda ao próximo, pois evita a futilidade da vida ociosa e nos transforma em seres humanos melhores", finaliza.

Para a questão da dependência química, Juldenicio destaca dois pontos para superar a dependência química: primeiramente, a sensação da dor da perda deve se tornar maior que a sensação de prazer que a droga proporciona. Aí, então, começa qualquer tipo de pedido ou necessidade de socorro. Segundo, é fundamental ter alguém que se disponibiliza para ajudar, pois, sozinho, é praticamente impossível. "Não é só parar de usar, pois quem para, volta. O foco é manter-se sóbrio o que, sozinho, se torna muito difícil", completa.

De qualquer maneira, cada caso será sempre exclusivo e as ações, por isso, devem ser sempre aprimoradas. Segundo o especialista em dependência química, Valdir Campos, o último relatório do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crimes (UNODC) apontou, inclusive, aumento do consumo de drogas sintéticas e de prescrição em compensação ao uso de outras drogas. “Desta forma, os debates são necessários e devem ser contínuos e aperfeiçoados com o desenvolvimento de pesquisas e descobertas nesta área para que todos os setores da comunidade possam ter uma visão realista deste grande problema de saúde pública”, finaliza.

 

>> Veja, no blog, as etapas de tratamento de um dependente químico.